Políticos de baixa popularidade e passado nebuloso, picaretas de diversas
atuações, ex-presidiários, condenados ou denunciados por estelionato e até
desconhecidos indignados com notícias de 30 anos atrás. Este é o perfil da
gritante maioria de "cidadãos de honra ilibada" que descobriram a indústria de
processos como forma de pressionar o Diário.
Insatisfeitos com a linha editorial do jornal, com as suspeitas que sempre
existiram e que reportagens só levantam, provocaram uma enxurrada de ações
criminais e cíveis. Em quatro anos foram quase 30 processos.
Não espanta que os donos do maior número de ações sejam políticos que fizeram
carreira ou montaram seu perfil ideológico na defesa da ditadura, dos
militares, e fase de repressão, tortura e morte de intelectuais, trabalhadores
e jornalistas.
Nunca houve tantos processos. Com as sucessivas absolvições, o jornal poderia
adotar medidas como representações, denúncia de abusos de poder e até ações
judiciais por denunciação caluniosa.
Não adota esta linha por acreditar que sua função é outra. Mantém as
reportagens e colunas de opinião como tribuna para defender sua linha
editorial.
"O jornal em momento algum pensa estar acima da lei. Reconhece estar sujeito a
erros e considera legítimo que cidadãos busquem seus direitos. Usar a Justiça é
forma democrática de fazer isso. Mas o Judiciário vem entendendo os excessos
nas ações, o que transparece nas absolvições em Marília ou no Tribunal de
Justiça", disse o editor do Diário, José Ursílio.
A base para a indústria de processos é em parte a má fé de muitas das
autodenominadas "vítimas" e parte em erro de conceito em relação ao jornal e ao
trabalho dos jornalistas.
Os processos tentam pressionar para que o jornal pare de emitir artigos de
opinião, de criticar comportamentos políticos, o que é direito garantido pela
constituição. O jornal não é uma concessão pública, como emissoras de rádio e
TV. É uma empresa privada com o direito de circular defendendo suas idéias. O
jornal não precisa ser isento. Pode e deve assumir posturas.
Gostar delas ou não depende do público, que pode escolher pagar para ter o
jornal ou simplesmente ignorá-lo, deixar de anunciar, recusar aparecer. Na
prática não é o que acontece.
O Diário mantém-se líder de circulação e atribui esta liderança a sua linha
editorial, à oferta de serviços, seções, informação e lazer.
"Ninguém é obrigado a gostar do que lê, a aceitar a opinião. Mas enquanto
estivermos falando das figuras públicas e de seus comportamentos como
funcionários e personalidades públicas, entendemos ter o direito constitucional
de exprimir nossas opiniões", disse Ursílio.
O problema é que os insatisfeitos não querem fazer o combate de idéias com o
jornal. Não conseguem envolver a comunidade e nem convencer ninguém contra a
linha editorial. Então usam a pressão judicial e a indústria de ações. "O
jornal não muda sua linha. Montou departamento jurídico de ótimo padrão, em
Marília e em São Paulo, para defender seu direito a exprimir idéias. Espera que
os insatisfeitos aceitem o jogo democrático e venham combater idéias. Mas
estará pronto para todas as ações", disse Ursílio.