O aniversário do Diário de Marília coincide com um momento difícil da vida
brasileira. O Congresso Nacional passa por uma de suas piores crises e a
economia, que vinha tão bem, atravessa uma séria turbulência. Talvez seja essa
a característica dos bons jornais: manterem-se altivos enquanto o mundo treme
com a inconsistência dos fracos.
Até pouco tempo se dizia que a atuação de um jornal do interior do país se
limitava a temais locais. No máximo poderia influir na escolha do prefeito,
ajudar a eleger um deputado ou a demitir um funcionário público. Hoje uma
publicação como o Diário tem um horizonte muito mais amplo. No meio de uma
saraivada de informações, o jornal regional é um sinal luminoso a mostrar a
saída dessa torre de Babel. Cabe a ele garantir o vínculo da comunidade com o
que de fato interessa.
O homem tem sede de conhecimento e gosta de saber o que se passa no mundo. Mas
precisa sentir os pés no chão. Entender a realidade que o cerca, as
necessidades de seu bairro, as mudanças em sua cidade, que esperanças
transmitir e que orientações dar aos seus filhos. Todo ser humano, por mais que
viaje e se liberte de suas origens, buscará inspiração, consolo e sabedoria nas
raízes de sua existência. As colunas, os tipos, o papel e até o cheiro de um
jornal como este marcam a nossa vida. É como se a cada dia, ao folheá-lo,
encontrássemos em suas páginas um pedaço da casa da infância, dos amigos e dos
nossos pais.Crescemos física e materialmente e passamos a ler a Time, The
Economist e o Wall Street Journal. A explorar oitenta canais a cabo e a navegar
noites adentro na Internet. Por uns tempos nos esquecemos daquele jornal que
chegava todas as manhãs e soltava tinta nos dedos. Que se bateu por um ginásio,
depois por uma universidade e talvez hoje diga que temos escolas demais e
ensinamentos de menos. O jornal que brigou pelo asfalto em nossa rua, que
defendeu o time da cidade nas piores derrotas, que apoiou a cafeicultura e
depois a indústria e viu Marília se tornar um dos municípios mais importantes
do Brasil.
Mas, um dia, quando sentimos falta de uma referência em nossas vidas, quando
queremos enxergar dentro de nós mesmos, nada melhor do que uma passada de olhos
por letras tão familiares. Nas páginas do Diário, e de uns poucos jornais que
chegaram à sua idade, vamos redescobrir um jeito de ser, de pensar e de agir
que vem de longe. Perceber que daquelas leituras resultou um pouco do caráter e
desse nosso jeitão interiorano. Que homenagem mais bonita poderia receber este
jornal no dia do seu aniversário? A certeza de que nos ajudou a escolher os
caminhos e a distinguir o rumo. O reconhecimento de que suas idéias, causas e
lutas, foram as mais justas. E que, graças a isso, podemos construir uma
sociedade melhor.
Carlos Nascimento