Milton Tédde: repasses do SUS são insuficientes para manter atendimentos
Milton Tédde,74, ocupa o cargo de provedor da Irmandade Santa Casa de Misericórdia há cinco anos. Ele é colaborador da instituição há 36 anos.
Casado com Barbara Batisteti há 52 anos ele tem quatro filhos e dez netos.
Tédde fala sobre os desafios na administração de um hospital. O administrador fala sobre a falta de recursos suficientes para realização dos atendimentos e da necessidade do aumento do teto repassado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Ele também cita a dívida que o município acumula com a entidade.
Além de revelar que a UTQ (Unidade de Terapia de Queimados) corre o risco de fechar por conta do déficit mensal.
Como é o trabalho desenvolvido a frente da Santa Casa?
Para um trabalho satisfatório eu tenho uma rotina diária na Santa Casa todas as manhãs. Em algumas datas específicas chego a ficar o dia todo.
O que procuramos cada vez mais é profissionalizar a instituição. Estamos constantemente na Confederação das Santa Casas aprendendo com outras entidades.
Hoje é muito difícil você administrar uma entidade que tem um número grande de funcionários.
Como avalia a saúde pública em Marília?
A saúde pública é bem complexa. É até difícil fazer uma avaliação porque talvez o grande problema que a população tem é a falta de orientação de onde e como procurar os hospitais.
É necessário saber que o primeiro destino é o posto de saúde para que lá haja um encaminhamento. Se critica muito a administração municipal, mas acredito que os órgãos de imprensa deveriam fazer um trabalho de bastante orientação para a população.
Porque as vezes o que ocorre é que se tem um número excessivo de atendimentos na Famema (Faculdade de Medicina) que é uma porta de entrada para todo atendimento da cidade, quando muitos problemas poderiam ser resolvidos nas unidades de saúde. Quando não tem solução é encaminhado para lá que pode chegar até a Santa Casa.
A Santa Casa tem três ambulatórios de especialidades. Nestes locais chegamos a atender de quatro a cinco mil consultas exclusivamente do SUS. Por exemplo, temos o ambulatório de oncologia que recebe um volume grande de atendimento. Outro ambulatório é o de hemodiálise que atende toda região, lá trabalha-se até a noite.
Então, eu acredito que a população de Marília está bem servida dentro dos padrões. O que talvez as pessoas não entendam é a questão de que o paciente procura o hospital quando na verdade deveria passar pelo posto ou fazer uma triagem. O que há de fato é uma desinformação muito grande.
Outro problema são os recursos que o Governo manda para o município. Nós temos a capacidade de atender muito mais, só não o fazemos porque o recurso do SUS que nos é designado é insuficiente. Nós temos capacidade e médico para atender muito mais do que é feito hoje, o que traria também uma solução para a população.
Se hoje nós deixamos de atender é porque quando chega no dia 20 já gastamos todo o recurso. Se nós excedermos depois fica difícil receber.
A principal reclamação atualmente é em relação às cirurgias eletivas. Quem controla tudo isso é a secretaria de Saúde. Se esta estrutura errar o restante também falha.
É importante frisar que no caso da Santa Casa não somos porta de entrada e sim referenciados, ou seja, um hospital de alta complexidade. Mas no que diz respeito à entidade podemos dizer que atendemos prontamente a população.
Quais os principais problemas enfrentados com a administração municipal? O que poderia ser feito para melhorar?
Nós tivemos alguns problemas com administração, mas hoje o transtorno maior é a luta para conseguir um teto maior para proporcionar melhor atendimento para população.
Se o município não consegue um teto maior da união para que possa distribuir, nós não temos o que fazer. O secretário da Saúde, Julio Zorzetto sabe que existe uma deficiência muito grande neste valor repassado. Cabe a cidade reivindicar aumento de teto para que nós possamos atender mais cirurgias e mais ambulatórios.
O que a Santa Casa contribui para área da saúde no município?
Nós temos contribuído com município com tudo aquilo que ele precisa na área de cirurgias extra teto. A Santa Casa nunca disse não a uma solicitação de urgência e emergência da secretaria municipal de Saúde. Nós atendemos dentro daquilo que é possível, mesmo sabendo que teremos dificuldade em receber, o hospital contribui bastante neste setor.
Quando o município faz uma licitação para exames laboratoriais e que o valor não cobre nem o custo, a Santa Casa e os serviços terceirizados da instituição também ajudam com estes serviços.
A instituição compreende que o município também tem suas dificuldades financeiras.
Qual o valor da dívida do Município com a Santa Casa? No que isso atrapalha?
Até dezembro do ano passado a dívida é de R$ 398 mil. A instituição gastou R$ 698.3 mil e recebeu R$ 300.3 mil.
O débito oscila de acordo com a semana. Existe o compromisso do teto, dinheiro do Governo Federal, neste caso o valor tem sido passado corretamente dentro do mês.
O que nós temos dificuldade e a Prefeitura reclama que não tem recurso é no extra teto. Agora diminuiu bem porque a própria secretaria tem segurado os atendimentos, não sei se tem encaminhado para outros hospitais. Acredito que não, se alega que não há recurso para Santa Casa, também não pode encaminhar para outro hospital, porque a prioridade é o hospital.
Este recurso que não está no orçamento previsto tem que sair do Fundo Municipal de Saúde. Se a secretaria não tem este dinheiro, tem que sair do Tesouro Municipal. É onde a cidade tem a dificuldade em pagar porque já vem de um orçamento anterior.
Mas de qualquer modo este recurso tem que ser resolvido, por exemplo, quando ocorrem os acidentes na área ortopédica e o valor já foi esgotado, eu tenho que atender o paciente de qualquer forma. Neste caso o município solicita e nós atendemos na urgência e emergência.
Nossa missão é salvar vidas. Não tem como perguntar quem vai pagar. Depois nós vamos lutar para receber. E nós atendemos muitos pacientes já sabendo que não teremos o retorno. É aí que a Santa Casa entra numa dificuldade financeira. E o secretário de Saúde sabe deste quadro.
Sobre a UTQ, os recursos repassados são suficientes?
A nossa administração trabalhou muito no ano passado. Em fevereiro nós reinauguramos os trabalhos na UTQ (Unidade de Terapia de Queimados). Embora o recurso que vem da união é baixíssimo e não cobre nem 50% do custo, nós estamos tendo um déficit de R$ 60 a R$ 70 mil por mês com a UTQ. Não sabemos se vamos continuar atendendo ou não, se o município vai arcar com essa responsabilidade.
A união enviou um recurso de R$ 47 mil por mês, quando se gasta R$ 120 mil. E nós estamos atendendo. Enfim, a Santa Casa tem feito um trabalho de filantropia em muitos setores.
A população não sabe avaliar a importância da UTQ, o quanto as pessoas sofrem acidentes de queimaduras. Antes se queimava a mãe e um filho e quando nós fechamos a unidade, o filho era enviado para Catanduva e a mãe para Bauru.
Teremos que conversar novamente com o município e com o Estado, porque se eles não derem recurso, a Santa Casa não pode continuar bancando um valor de até R$ 70 mil de déficit por mês.
Uma unidade dessas não se faz da noite para o dia. Hoje nós estamos credenciados, mas se for para continuar tomando esse prejuízo, o município e o Estado precisam compartilhar esses gastos.
Já existe alguma reunião marcada para discutir o assunto?
Não existe e por incrível que pareça é a primeira vez que está se falando neste assunto. Eu aproveito essa entrevista que o Jornal Diário nos concedeu para anunciar que vamos sim marcar uma reunião para discutir esse assunto e que isso seja solicitado.
Corre o risco da UTQ ser fechada?
Eu acredito que o poder público deve solucionar este problema, porque teve muito mais prejuízo com ela fechada encaminhando pacientes para outras cidades, com ambulâncias nas estradas e pagando diárias de funcionários, gastando com combustível e pagando até alimentação para esses pacientes.
Quais os planos da instituição para 2012 tanto em investimentos como projetos?
Nós temos para 2012 a intenção de aumentar mais nove leitos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) que devem estar prontos dentro de 50 dias. Esta é uma ampliação necessária para Marília e região.
Devemos chegar há 30 leitos em todas as áreas sendo, UTI cardiológica, adulta, pediátrica, neonatal, unidade dor torácica e UTQ.
Este ano também devemos inaugurar o novo setor de imagem, uma parceria com a Ultrarádio.
Devemos inaugurar também dentro de 90 dias, se tudo correr bem, a UTI mista pediátrica e neonatal. Já temos o recurso destinado pelo deputado Vinicius Camarinha de R$ 250 mil para compra de equipamentos.
Quanto a Santa Casa recebe de recursos de que fontes? É suficiente?
Do governo estadual o hospital recebe R$ 1,501.2 milhões, já o governo federal contribui com R$ 2,230.7 milhões
É insuficiente. Tudo que depender de recurso tem que partir da secretaria de Saúde solicitar. Já quando é pelo estado tem que passar pela DRS (Divisão Regional de Saúde), mesmo que a iniciativa for nossa.
Em algumas audiências com o governador Geraldo Alckmin, ele tem feito estas reivindicações.
Já o Governo Federal está muito frio nestas solicitações de aumento do teto. Somos atendidos somente em alguns casos pontuais, mesmo assim o Ministério da Saúde demora muito a repassar os recursos. Então temos uma falta de verba muito grande. Acredito que os deputados federais teriam que fazer um movimento em conjunto para pressionar o governo federal em relação a isso.
O que traria mais recursos seria a Emenda 29, esta foi aprovada mais vetada na grande maioria pela presidente Dilma Rouseff.
Mas de qualquer forma temos que estar unidos sempre no pedido de verbas.
A nossa população está envelhecendo mais, a média de vida aumenta, mas os recursos não crescem nesta proporção. Tudo isso causa a elevação de custo e quem banca isso são os hospitais filantrópicos.
Quantos procedimentos são feitos no ano? Entre cirurgias,consultas e exames? Teve aumento em relação a 2011?
No último ano registramos 10.868 internações, 39.008 diárias, 7.905 cirurgias, 28.560 sessões de hemodiálise, 259.772 exames laboratoriais, 51.224 exames de imagem, 258.170 outros atendimentos ambulatoriais.
Os números praticamente mantiveram-se os mesmos, ocorrendo em alguns procedimentos um aumento de 3%.
Qual a relação da instituição com os funcionários?
Temos uma participação dos funcionários com uma série de atividades durante o ano. Também é escolhido o funcionário do ano por eles mesmos. Santa Casa premia simbolicamente, mas não esquece os seus colaboradores.
Outra coisa importante é uma vez por ano a apresentação dos pratas da casa. É um show de duas horas em que ficamos muito orgulhosos da união dos empregados.






