Derrubado por um espirro
O desabamento dos prédios no centro do Rio de Janeiro acende uma luz amarela de aviso para o Brasil inteiro: edifícios não são eternos. Pirâmides podem ter 4 mil anos; foram feitas com pedras empilhadas para abrigar para sempre sarcófagos dos faraós que partiram para a eternidade. Construções de concreto podem durar muito, mas precisam ser bem tratadas. No Rio, desabou o viaduto Paulo de Frontin. No rio Jacuí, ano passado, desabou uma ponte. Prédios desabam quando são mal construídos, ou o material é ruim(lembram do Palace II, na Barra da Tijuca?), ou foram construídos em locais perigosos.
Basta olhar a foto do edifício Liberdade, de 20 andares, que ruiu e derrubou dois vizinhos, para sentir que ele não foi feito - nem calculado - para abrigar escritórios. As varandas agora fechadas com vidro, mostram que o prédio era de apartamentos - na época ainda se morava no centro do Rio. E o endereço era invejável, pertinho da Cinelândia. Num apartamento moram três ou quatro pessoas e os móveis mais pesados são, no máximo, o refrigerador. Pois convertido em prédio comercial, o peso muda. Arquivos de aço, computadores, muitos móveis, muito papel e muita gente, principalmente onde há aulas.
Somem-se a isso mudanças nos últimos andares, que eram escalados, numa espécie de pirâmide e se tornaram maciços e mais pesados, mais reformas que retiraram paredes que, mesmo não fazendo parte da estrutura, agiam como uma colméia, que dava sustentação à sobrecarga. Abriram-se buracos num lado, para instalar janelas em escritórios e clínicas - antes não previstas em apartamentos - e o resultado foi que bastaria um espirro para pôr tudo abaixo.
Um luz amarela está acesa. Prédios malcuidados são perigosos. Nossa mania amadorística e nossa criatividade podem derrubar edifícios. Chamem os profissionais! Não se pode fazer uma reforma sem um engenheiro. Nos condomínios, a responsabilidade do síndico é pesada. Ele é o representante dos condôminos, mas também é um agente da lei, da fiscalização, da prefeitura. O que se passar com o prédio, na estrutura, na água e energia, está na esfera de suas responsabilidades. Quando se erguia o primeiro prédio mais alto de Cachoeira do Sul - oito andares - , em meados dos anos 50, meu avô olhava as obras e me dizia: “Quando será que vai cair?” Curioso, perguntei a razão da dúvida. “É que edifícios não duram para sempre. Um dia vai cair. A questão é saber quando.” O edifício Woolworth, de 57 andares, que já foi o mais alto arranha-céu do mundo, está firme e forte e ano que vem completa 100 anos, em Nova Iorque. A uma quadra dele, o monumental World Trade Center entrou em colapso com o choque de dois aviões contra o topo das torres gêmeas.
Alexandre Garcia






