Luzes da ribalta! 1
Dando continuidade ao tema produção teatral e equipamentos que abrigaram a história das artes cênicas em Marília vamos falar um pouco de censura.
No período da ditadura militar, segundo a atriz Cristina Pompeu em seu depoimento a Alessandro Rastelli,... “havia a censura, então havia o sensor, e nós tínhamos que apresentar o espetáculo só para ele, e ele ficava com o texto na mão riscando, riscando.., mas era só ele virar as costas, que a gente desriscava, desriscava...”. Também Ramis Pedro em seu depoimento fala da censura: “... Vivíamos o período da ditadura, então os meios de comunicação foram todos censurados e a gente sofreu muito porque os sensores não conheciam o teatro nem a música. Faziam os cortes, e estes fracionavam as peças, cortavam o sentido, as falas... Dificultavam muito o trabalho da gente e trabalhávamos com certa expectativa. Meu Deus, de repente eles poderiam interromper a peça como acontecia em São Paulo. Depois foi atenuando...”.
Ramis é um nome que deve ser sempre lembrado no teatro mariliense, pois foi durante vários anos presidente da Fetalpa (Federação do Teatro Amador da Alta Paulista) e fez grandes festivais além de promover o teatro através da sua coluna diária no Jornal Diário de Marília denominada “Entre Atos” e foi ele um dos mobilizadores da sociedade em prol da construção do nosso Teatro Municipal. Também lembramos aqui os nomes de Walter Ferreira, Orozimbo Luiz Giraldi, Oswaldo Mendes, Danilo Silva, Rachel Araújo, Odete Possolo, João Rocha, Waldir Mello, Maria Stela Ambrósio, esta última memorável na apresentação da peça de Plínio Marcos, “Quando as máquinas param”, dentre outros nomes que construíram a história do Teatro de Arena em Marília.
O Arena funcionou ate a década de 70 na rua XV de Novembro e segundo o historiador Paulo Lara em sua obra, “Marília, sua terra, sua gente”, 1989, “No início da década de 70 o Teatro de Arena se transferiu para a avenida Rio Branco, atrás do Ginásio Estadual junto ao atelier do artista plástico Braz Alécio e ali muitos espetáculos de alto nível foram montados e realizados”.
Em 1977, em sua coluna Entre atos, Ramis Pedro fala sobre a situação do teatro amador: “Estamos sofrendo as agruras da reforma do Teatro de Arena, que prejudica sobremaneira o trabalho dos artistas. Os integrantes dos grupos estão todos decepcionados, aturdidos pela falta de apoio e procuram o anonimato”. Em face disto, o prefeito da época, Theobaldo de Oliveira Lyrio, em ato simbólico ocorrido em 9 de outubro de 1977, com a presença do representante do Secretário Estadual de Cultura, Kalil Jabur, o Secretário Municipal da Cultura, Benjamim Soares de Azevedo, além da presença da atriz Rachel Araújo e seu marido diretor Fausto Fauzer, o professor Olímpio Cruz, Delegado de Ensino, diversos vereadores, artistas dos grupos de teatro amador, membros da sociedade amigos da cultura, da Loja Maçônica Brasil II, dentre outros que se fizeram presentes, lança a pedra fundamental para a construção de nosso teatro.
A demolição do Teatro de Arena iniciou no dia 12 de outubro de 1977, para dar lugar à construção do Teatro Municipal e desaparece o Teatro que nasceu na rua XV de novembro de 1959 e que nas palavras da atriz Rachel Araújo durante o lançamento da pedra fundamental do Municipal ...”desenvolveu durante 18 anos um trabalho árduo, no sentido de dar aos grupos amadores nascentes uma estrutura sólida que contribui substancialmente para o ato que se realiza agora, constitui-se para ele (o Teatro Mariliense), o início de uma nova era.”
Para Ramis, em depoimento a Alessandro Rastelli: “perdemos a nossa casa. E com ela a nossa identidade. Surgiu o Teatro Municipal, mas ele não é nosso. Hoje ele desempenha uma dupla função, a artística e a política. Da parte artística os grupos de teatro da cidade estão sujeitos a agendamento, os grupos de fora têm privilegio. “Não temos mais espaço para o teatro de repertório como acontecia com o Teatro de Arena.”
A obra construída em estilo clássico, mas facilmente adaptada para o moderno, com palco italiano com capacidade para 500 pessoas, ocupa uma área de 1.500 metros quadrados, e tem 15 metros de altura entre a ribalta e a cobertura, ou seja, o equivalente a um edifício de 15 andares. Ali já tivemos espetáculos de grandes companhias de teatro, e grandes nomes já passaram por ele como Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Bibi Ferreira, dentre outros.
Também anualmente eram realizadas as homenagens aos pioneiros com a “Noite dos Pioneiros”, além dos festivais de dança das academias de Marília, festivais de teatro, de monólogos, Semanarte, dentre outros. Leva o nome de Waldir Silveira Mello, homenagem ao ator que participou ativamente do Teatro de Arena de Marília.
O historiador Paulo Lara, a despeito da demolição do Teatro de Arena, escreveu: “Oxalá a construção de um Teatro de Arena pelo próximo prefeito possa dar um novo ânimo a atual juventude e o teatro amador volte a ser aquela célula ativa cultural de um passado recente.”
E podemos dizer também que se tivéssemos um Teatro de Arena teríamos uma alternativa de teatro público para a cidade enquanto aguardamos a longa espera da conclusão da reforma do Teatro Municipal. Esta história continua.....
Wilza Aurora Matos Teixeira
Membro da Comissão de Registros Históricos
e-mail wilza@camar.sp.gov.br






